“Uma e Três Contingências”: Arte e Comportamento Verbal.

 

O que vocês estão vendo abaixo é uma obra do artista Joseph Kosuth, de 1965. Chama-se-Um e Três Martelos. Do lado esquerdo, vemos a foto de um martelo. No meio, um martelo, desses normais que você usa em casa, pendurado na parede. À direita, uma descrição do martelo. Muita gente diz: “Ah, isso também eu sei fazer… ” ou “Isso não é arte” ou “Isso meu filho de cinco anos faz”.

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Toda vez que você se encontra com uma obra de arte, há duas coisas envolvidas. A primeira é aquilo que você percebe, ou seja, o impacto (nesse caso, visual) da obra (1).

E o que você vê, assim “de cara”, nesta obra, é realmente muito banal. Não é bonito, mas,opa… pensando bem, também não é feio. Estranhamente, o quesito beleza nem parece se aplicar! E aí você, com razão, fica perplexo(a): “Como pode ser arte, algo em que a beleza nem parece estar em questão?”

A segunda coisa envolvida quando você se encontra com uma obra de arte é o significado da obra. Toda obra de arte tem esses dois aspectos, mas um pode predominar sobre o outro.

Na arte conceitual, da qual a obra acima faz parte, um peso muito maior, quase exclusivo, recai sobre a segunda dimensão: o significado da obra. Ou seja, importa muito o que ela diz, e, como veremos, importa mais ainda o que ela faz você dizer.  A obra de arte fisicamente presente, como esta que está aí, é, nesse caso, um produto do comportamento verbal do artista e é pensada como ocasião para estimular o comportamento verbal do “espectador” (a palavra se aplica muuuito mal nesse contexto, pois a ideia não é contemplar, e sim agir verbalmente).   Em termos coloquiais, a intenção é estimular a mente, mais que os sentidos (2).

O contexto é fundamental para entender o que alguém disse ou o que um autor escreveu, concorda? Assim é, também, para a arte conceitual. Quando Marcel Duchamp pegou um urinol comercialmente disponível, levou-o para uma galeria e o expôs, invertido como uma obra artística, ele foi um precursor da arte conceitual. Por quê? Porque ele mostrou que um urinol num banheiro público é uma coisa. Quando levado para uma galeria, exposto ali e assinado, ele vira outra coisa. O contexto é extremamente importante.

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O urinol não é exatamente belo e a função de colocá-lo ali era estimular, provocar, despertar, não os sentidos, mas o pensamento. Aquele objeto no meio de uma galeria fez as pessoas pensarem sobre coisas como: O que é a arte afinal? Qual a importância do contexto para algo ser considerado arte? Qual o peso de quem diz o que é ou não arte em um dado momento histórico? Se a arte virou mercadoria, por que não achá-la pronta, pret-à-porter, em uma loja de construção e montar uma exposição?

Se você está resmungando que “um urinol é um urinol é um urinol”, por um lado, você tem razão. Ainda estamos falando, em certo sentido, de um urinol. Mas, por outro lado, pense bem:  você usaria o urinol do Duchamp para fazer xixi, em vez de usar o banheiro  do museu? Pode até ser que sim, mas não da mesma maneira que usaria o do banheiro! Se você fizesse isso, você estaria fazendo, por exemplo, um protesto, expressando, digamos, que você NÃO ACEITA que aquilo é arte. Seria um statement e não mais um simples alívio de uma necessidade fisiológica. Ou seja, você estaria agindo verbalmente, sob controle da obra. Seu ato de urinar seria um ato verbal (além de você ir preso, provavelmente, o que mostra que, de fato, já não estamos falando mais do mesmo urinol).

Voltemos então aos nossos martelos. Quais são algumas coisas que essa obra faz pensar (e que, num looping auto-referencial, têm tudo a ver com o comportamento verbal e nossas discussões sobre significado)?

Primeiro, esses três martelos são, realmente, três martelos? Bom, se você conhece a famosa pipa de Magritte (ou leu A Culpa é das Estrelas, hahaha), essa charada você já matou. Está aí pensando que só há UM martelo, o do meio. Os outros dois são representações de martelos, não são martelos de verdade.

Sim, mas espera… e o do meio? Ele não é uma representação também? Afinal, ele não foi pendurado pelo artista, para dizer algo? Não é um martelo solto em sua casa, sem signficado especial. Ninguém pode pegar aquilo para bater um prego em outro lugar do museu.  Este martelo tridimensional pendurado na parede está, justamente REPRESENTANDO o martelo “concreto”, físico”. Então será que estamos lidando com três representações, e não duas? (3)

Além disso, ao dizer que só o martelo do meio é de verdade, você começa a pensar no sentido desse “de verdade”, ou “real”. Afinal, uma foto não é tão real quanto o objeto pendurado? Aliás, neste tempo em que vivemos, a representação não se torna até MAIS real? Quem é mais real, você no meio dessa obra, de carne e osso, ou você à direita, descrita em palavras, como no seu perfil do facebook?

Quer saber uma coisa que eu pensei ao olhar para essa obra? “Peraí… se fosse a palavra contingência, não daria para fazer uma obra análoga. Só haveria o painel da direita! Não há fotografia possível de uma contingência, nem muito menos uma instância “lá no mundo” que eu possa apontar e dizer “Olha ali a contingência!…” . Ou seja, é possível a obra “Um e Três Martelos” e é possível a obra “Uma e Três Cadeiras” (ela inclusive existe!) mas não seria possível a obra “Uma e Três Contingências” .  O quanto isso nos diz sobre conceitos como esse e sua função na ciência?  Conceitos como contingência  não são máquinas de nomear, são máquinas de pensar o mundo!

Infinitas outras coisas são evocadas por essa obra.  mas elas só são evocadas porque fazemos parte da mesma comunidade verbal do artista: somos filhos da modernidade, temos uma consciência metalinguística pronta para aflorar. Basta um pequeno estímulo. A obra poderia não fazer muito sentido em outros momentos históricos ou em outras sociedades, talvez nem fosse concebível. Mas nõs vivemos rodeados por textos e imagens e estamos muito prontos (no sentido de primed) para filosofar sobre seu status ontológico.  São comportamentos verbais muito prováveis em nós.

Isso é verdade para outras obras de arte conceitual também. Os artistas estão falando conosco. Nâo só com quem quem estudou muito ou tem acesso a obras herméticas sobre arte moderna. Basta a ocasião, a resposta verbal está forte. Observe crianças com bons guias em museus e exposições e verá do que estou falando.

(1)  Esse tipo de obra é muito parecida com um texto, em alguns aspectos. Lógico que não é idêntico a um texto, se não, não teria graça… A obra Um e Três Martelos em forma de tratado filosófico não seria mais a obra.  Uma das características mais interessantes da arte conceitual, ao meu ver, é que ela deixa muitas lacunas para você preencher. O artista teve alguma intenção ao  mas os próprios artistas conceituais sempre nos lembram que eles perdem o controle sobre a obra depois que ela começa a circular.  Ou seja, o produto do comportametno verbal do artista se torna um estímulo para o comportamento verbal de outros membros da comunidade verbal e essa interação gera muita riqueza (e a ideia é essa mesno). .

(2) Quando a primeira dimensão é preponderante, a experiência parece envolver aspectos difícies de nomear, que passam de forma mais “direta” pelos sentidos e pela emoção. A música é um exemplo paradigmático dessa experiência com a arte, em formas que  envolvem muito pouco, se é que envolvem, o comportamento verbal. A música não conta histórias (embora a letra possa contá-las, se houver letra).

(3) Se você achar que estou brincando futilmente com palavras, saiba que o status desse martelo do meio que, num jogo de espelhos à la Alice, se representa a sí mesmo, tem tudo a ver com algo que Skinner diz no Capítulo 1 (p. 17). Skinner aponta que o comportamento verbal tem um aspecto bastante fascinante que é o fato de que ele é representado, não dando a ele um nome, mas reproduzindo-o. Por exemplo, vamos supor que eu relate que Maria disse “Eu fui ao museu e adorei a exposição”. Quando eu digo “Eu fui ao museu e adorei a exposição”, isso não é mais o comportamento verbal de Maria. É o meu. É como se fosse o nome do comportamento verbal de Maria. Só que não temos um nome para o comportamento verbal dela. O nome do comportametno verbal dela é idêntico ao comportamento verbal dela. Skinner dá alguns exemplos, citando Bertrand Russell, em que comportamentos verbais muito frequentes numa comunidade têm nomes próprios. Um caso é o Pai Nosso. Eu digo que vou rezer o Pai Nosso e não preciso reproduzir a reza toda para explicar o que vou rezar, a reza tem nome próprio. Mas isso é bem raro.

Como citar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 15 de outubro). “Uma e Três Contingências”: Arte e Comportamento Verbal. Recuperado de https://noblackscorpion.blog

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flores (2017) enfatiza….