O comportamento verbal como variável dependente.

Falar é algo que fazemos e implica, portanto, em movimentos.  Falar vocalmente implica em atividades musculares complexas  que produzem sons. Escrever ou falar em LIBRAS envolvem a coordenação de movimentos musculares incrivelmente complexos e ainda, em grande parte, incompreendidos.  Mas, vem a objeção em seguida, isso tudo é secundário, pois o que importa é o significado que isso carrega. 

Como é possível dizer “Te amo” em francês, em Libras ou em português, escrever Te Amo em italiano ou em Esperanto num papel de cartas perfumado e isso ter o mesmo significado?  Obviamente que não parecem importar muito os movimentos envolvidos mas sim esse “algo mais” que parece flutuar misterioramente acima de cada gesto desses.

É verdade que há algo mais, além dos movimentos e dos produtos dos movimentos, que podem ser muito diferentes. Como isso é possível?

Vamos dar um passinho para trás.

O que está sendo descrito na citação abaixo?

“Ocorre na articulação do joelho uma extensão brusca e rápida do joelho realizada pelo músculo quadríceps (reto femoral, vasto medial, vasto lateral e vasto intermédio) seguido de uma flexão de quadril (realizado pelos músculos reto femoral, iliopsoas e tensor da fáscia lata) acompanhada de contração dos músculos abdominais. O membro apoiado está com o quadril (músculo glúteo máximo e isquiotibiais) e o joelho (músculo quadríceps) em extensão. A articulação do joelho é a de maior contribuição na velocidade final do [movimento], quando esta realiza a extensão plena. (…) Na articulação do quadril do membro anterior é realizada uma semiflexão do quadril pelos músculos reto femoral, tensor da fáscia lata, pectíneo e sartório, adutor curto, adutor longo e porção adutora do músculo adutor magno. O joelho do membro anterior está encaminhando para extensão. O músculo agonista deste movimento é o quadríceps femoral.  No membro posicionado posteriormente o joelho está em semiflexão, os músculos trabalhados são os isquiotibiais (semitendíneo, semimembranáceo, e bíceps femoral), grácil e poplíteo. Os antagonistas responsáveis por sustentar o movimento estudado são os isquiotibiais (semitendíneo, semimembranáceo e bíceps femoral) e glúteo máximo (…).”*

Trata-se de uma parte da descrição cinesiológica e biomecânica de um chute, como você deve ter percebido. Ou seja, nas visões tradicionais de linguagem, seria descrito como não-verbal. Mesmo assim, cabe a mesma observação que foi feita em relação ao ato  de dizer “te amo”. A descrição ajuda a compreender quão complexo é o movimento do ponto de vista cinesiológico e biomecânico e é fundamental para diversas disciplinas como a educação física, a fisioterapia, dentre outras. Assim também, seria possível descrever os mais de cem músculos envolvidos em falar Eu te amo  Mas falta algo para o nivel de explicação que queremos na psicologia. Nosso comportamento não pode ser apenas movimentos,  há algo mais. 

Dei o exemplo do chute para mostrar que não é só no caso da linguagem que ficamos insatisfeitos com recortes que descrevem movimentos. É com qualquer ato. Ele não é só movimento, não pode ser apenas movimento. Falamos então no sentido do movimento, na intenção do movimento ou no que ele representa ou significa. Tanto no caso de um “Eu te amo”, quanto no caso de um chute.

Agora pergunto a vocês: quando perguntamos sobre o significado do chute, o que queremos saber? Queremos descobir, por exemplo, se foi um chute ao gol, um ato de agressão contra outra pessoa, um gesto de frustração e raiva dirigido contra um móvel, uma demonstração de um técnico de futebol sobre a melhor forma de dar mais força ao chute, etc. Pode ser infinitas coisas. E como descobrimos? Os exemplos já indicam o caminho: olhando além do movimento. Abra um zoom e verá em que circunstâncias está ocorrendo o movimento e o que ele efetua, ou seja, seu contexto e sua função. O significado, portanto, nunca pode ser captado apenas no movimento. Isso é verdadeiro para qualquer ação, não só para o comportamento verbal.

Voltando ao exemplo do Eu te amo, fica claro que de forma alguma todos os exemplos dados terão necessariamente o mesmo significado. Sem sabermos algo sobre a circunstâncias em que o ato verbal foi realizado e o efeito sobre o ouvinte, não sabemos grande coisa. Caso contrário, não haveria discussões intermináveis entre casais sobre o significado do “Eu te amo”, não é verdade?

Uma observação final é que o movimento do chute pode ser verbal ou não. Ficam três convites para vocês se comportarem verbalmente:

(1) O que vai definir se um movimento de chute é verbal ou não?

(2) Conseguiria dar um exemplo de um chute verbal?

(3) Dê dois exemplos de “eu te amo” com significados totalmente diferentes. Para onde olhamos quando concluímos que o significado não foi o mesmo?

  • Machado et al. (2014). Análise cinesiológica e biomecânica de um gesto esportivo.O chute no futebol. EFDeportes.com: Revista Digital, 191. Disponível emhttp://www.efdeportes.com/efd191/biomecanica-de-chute-no-futebol.htm

Como citar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 8 de outubro). O comportamento verbal como variável dependente. [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flores (2017) enfatiza….