Sobre maçãs e significados.

Quando agimos verbalmente (lembrando sempre que podemos fazer isso de várias maneiras, não apenas vocalmente), há, em alguns casos, um produto físico mais ou menos volátil de nosso comportamento, como os sons do poema que declamamos ou as marcas de tinta no contrato que assinamos. Torna-se fácil esquecer que estes são produtos do comportamento verbal e não o comportamento verbal em si. Olhando para as letras no papel como se elas fossem a origem do comportamento e não o contrário, ficamos mesmerizados: “Como pode um simples registro no papel, que afinal é apenas pigmento, ter significado”? O que é o significado?”

Não temos problema com o uso da palavra significado. Se uma criança pergunta a você “O que significa pecado?”, é mais provável que você se enrole com a palavra “pecado” do que com o sentido de “significar”. Mas quando começamos a filosofar sobre o significado, de repente notamos que não sabemos mais o que é.

É como disse Santo Agostinho sobre o significado de tempo:

Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada.”

Uma tentativa comum é pensarmos no significado como aquilo para o qual a palavra aponta. Nessa concepção, o significado da palavra maçã é a fruta maçã. Dizemos também que a palavra maçã representa a fruta maçã ou que a palavra maçã se refere à maçã. Alguns dizem que a palavra equivale à fruta.

Mas que fruta seria essa, à qual a palavra maçã corresponderia? A fruta específica que está na fruteira sobre a mesa? Todas as maçãs do mundo? Nesse último caso, isso inclui todas as que já existiram e viraram terra? Todas as que ainda irão crescer nas macieiras?  A que estiver sendo digerida por algum passarinho? Inclui alguma maçã na pintura de Jordaens mostrada aqui?

Jordaens_Adam_and_Eve

E em outros casos, a coisa fica mais difícil ainda. A que correspondem as palavras caso, coisa, ficar, mais, difícil, ainda que usei na última frase?

Note como a suposição de que palavras equivalem a coisas no mundo tem vários preconceitos embutidos. Como o de que on significado é algo ligado a palavras e não a nosso comportamento verbal. Seu amigo escreveu “maçã” num guardanapo ontem, num café, mas não é sequer desse registro que estamos falando. Fomos mais longe ainda e criamos um ente abstrato: “a palavra maçã”. De passo em passo despercebido, estamos andando em gelo cada vez mais escorregadio *

Alguns filósofos, a partir de Frege, afirmaram que palavras soltas não têm significado, o que tem relação com o mundo são proposições, ou seja, coisas que são ditas sobre o mundo, que nos informam sobre um estado de coisas. Por exemplo, A maçã está na mão de Eva. Proposições como essa teriam uma relação ponto-a-ponto com uma determinada situação no mundo (no caso, Eva segurando a maçã na mão).**

Wittgenstein comparou essa relação entre uma proposição e uma situação no mundo com a relação entre um mapa e um terreno. O mapa não é uma reprodução do terreno, caso contrário, não serviria como mapa. Mas você consegue traçar relações ponto-a-ponto entre aspectos do mapa e aspectos do terreno. Ele imaginou que a relação entre uma proposição e um estado de coisas no mundo seria parecida com isso.

Somente proposições que tivessem essa relação com o mundo poderiam ser verdadeiras ou falsas. As demais não seriam nem verdadeiras, nem falsas. Por exemplo, “Maçãs são frutas” seria sobre como devemos classificar conceitos e não seria, portanto, nem falsa nem verdadeira. “Deus é Pai”, “Nada existe de grandioso sem a paixão” ou “A necessidade geral da arte é a necessidade racional que leva o homem a tomar consciência do mundo interior e exterior e a lazer um objeto no qual se reconheça a si próprio”***seriam tentativas de falar o que não pode ser dito. As questões metafísicas, místicas, espirituais, a poesia e mesmo a tentativa de falar com sentido sobre a própria linguagem seriam impossíveis pois estariam fora dos limites da própria linguagem.

Reza a lenda que, um dia, Wittgenstein estava conversando com um colega italiano quando este perguntou, irreverente, qual seria o estado de coisas representado por um gesto muito conhecido na Itália. A metáfora da linguagem como imagem, mapa ou esquema de um estado de coisas não se aplica a esse gesto tão expressivo. Aliás, ele não se aplica à maioria das coisas que dizemos e que, no entanto, não parecem sem significado (longe disso) nem fora dos limites da linguagem.

Wittgenstein abandonou essa perspectiva da linguagem como presentação ou figuração e parte desse processo se deu porque ele se deu conta que estava partindo de uma imagem muito restrita da linguagem. Muito além das proposições descontextualizadas dos filósofos, quando falamos de linguagem, estamos lidando com atividades humanas profundamente enraizadas em nossas formas de vida.

A questão não é que não faça sentido dizer coisas como “Me referia a maçãs verdes e não vermelhas”ou “É a este quadro a que estava me referindo ontem quando conversávamos”.  Mas referir-se a uma maçã ou a um quadro é algo que pessoas fazem, e nào palavras ou proposições. Essa é uma das questões que o Verbal Behavior vai abordar. Além disso, fazemos muito mais do que nos referirmos a objetos quando nos comportamos verbalmente. E essa é outra questão central na obra. Mas essas são maçãs que vamos saborear com mais tempo depois.

*”We have got onto slippery ice where there is no friction and so in a certain sense the conditions are ideal, but also, just because of that, we are unable to walk. We want to walk so we need friction. Back to the rough ground!” (Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas).

** Vale notar que essa correspondência só seria possível quando a linguagem cotidiana fosse substituida por uma linguagem formal sem as ambiguidades e imprecisões próprias da primeira. 

*** As duas últimas são frases de Hegel.

Como citar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 24 de setembro). Sobre maçãs e significadose [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flores (2017) enfatiza….