Uma Rapidinha (pp. 6-7).

Nas últimas postagens, falamos um pouco da atmosfera intelectual em que o Verbal Behavior foi escrito. Vimos que Skinner propõe o que até então havia sido apenas tocado de leve por outras disciplnas (ou abordada, mas de forma restrita a alguns fenômenos, como os estudos semiõticos dedicados à propaganda). Trata-se de abordar a linguagem como algo que nós fazemos, ou seja, como ação.. Skinner quer também que, diferentemente de áreas mais específicas como a crítica literária ou a análise do discurso,  essa ciência seja geral, ou seja, que se aplique a qualquer situação em que nos comportamos verbalmente.

À primeira vista, o comportamento verbal parece um objeto de estudo bastante acessível: falamos (vocalmente ou de outras formas) o tempo todo (muitos de nós precisamos aprender a meditar para parar um pouco). Ou seja, dados não irão faltar. É também bastante fácil de observar, até porque, se não fosse, não funcionaria como linguagem (desde, é claro, que esteja em uma língua acessível e/ou modalidade acessível à sua observação,  por exemplo, lingua de sinais, se você é surdo(a) e braille para ler se for cego/a). Também é relativamente fácil de registrar pois há, para muitos sistemas (mas não para todos) um método pret-à-porter para o registro: a escrita. É claro que a escrita que usamos diariamente deixa de fora uma parte enorme do comportamento verbal (por exemplo, pesquisadores interessados em aspectos precisaram criar sistemas de codificação para dar conta minimamente de aspectos como pausas, volume, prosódia, interrupções, gestos, etc.). mas já é uma grande ajuda.

Em outras palavrs, temos tudo, menos uma abordagem das causas do comportamento, ou seja, do que nos leva a falar isto ou aquilo nas circunstâncias X. Usei o termo “causal” porque ele ajuda a entender por enquanto, mas o termo mais acertado é abordagem funcional. Trata-se de investigar as variáveis em função das quais nos comportamos (verbalmente) assim ou assado. Ou seja, uma tarefa, como já explicamos em postagens anteriores, tipicamente psicológica. Por que então ninguém havia avançado muito nesse sentido até então?

Para Skinner, tinha, e tem, uma pedra em nosso caminho. Uma pedra beeeem grande que nos impede de avançar. Essa pedra é nossa mania de procurar causas mecânicas para nosso comportamento, em vez de buscar causas históricas. Sabe aquela gravura da cabeça com engrenagens dentro, ou então o cérebro com as luzinhas se acendento? Pois é, essas são nossas metáforas preferenciais na psicologia. Se falei algo, é porque algo dentro de minha mente/meu cérebro me fez falar. Por exemplo, se eu escrevo aqui “telefone vermelho”< é porque eu tive antes uma representação do telefone vermelhor em minha mente. O que mais chama a atenção nessas nossas metáforas é que geralmente elas repetem exatamente o que nós fizemos. Dizer “telefone vermelho” se explica por um/a ideia/representação/imagem/fantasia/impressão de… um telefone vermelho; Mesmo quando (como é o caso) o telefone vermelho está aqui na minha frente, inventamos uma cópia dele para explicar por que eu escrevi “telefone vermelho” (essa invenção se chama, entre outras denominações, “dado dos sentidos” e causou/causa um furdunço danado na filosofia). Simplesmente não aceitamos que possamos nos relacionar diretamente com o mundo e mudarmos inteiros por conta disso. Sempre precisamos colocar uma cópia do que queremos explicar dentro da gente. E isso tem atrapalhado a gente um bocado.

Tentei escrever mais um parágrafo, mas acho que ele iria confundir (e não de um jeito bom). Então por hoje acho que faremos um corte lacaniano aqui.

Até a próxima sessão!

Como referenciar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 19 de setembro). Uma Rapidinha (pp. 6-7). [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flore (2017) enfatiza….