O contexto filosófico do Verbal Behavior – Parte 2 ou O que não sabemos que sabemos.

Ludwig Wittgenstein certa vez propôs* que imaginássemos a seguinte situação: alguém pede a você que estime quantos quadrados pequenos cabem em um quadrado grande. O que você responde? Pare um segundo (ou mais) para pensar.

Bom, provavelmente você responderia que estava faltando determinar algo muito importante: o tamanho dos quadrados, ou então a proporção de um para o outro. Sem deixar certas coisas mais claras, não dá para começar.

Imagine então que a pessoa lhe respondesse: “Não, tente responder. Olha, você não vai ter certeza absoluta, mas tente pelo menos estimar. Não teremos uma resposta exata, mas é que nada aqui é exato, a ciência dos quadrados trabalha com dados probabilísticos.”

ou

“Tente responder. É só você pensar muito bem em seu delineamento. Tenha certeza de usar o método experimental, ele é a cereja da cereja do bolo, pois estabelece relações (uau!) causais! Nâo se junte com aquela gentalha que usa métodos meramente correlacionais.”

Talvez, ainda, a pessoa lembre que você não deve ser tão exigente, afinal, a ciência dos quadrados é uma mera deusa-criança no Olimpo das Ciências, um bebê que ainda está dando seus primeiros passos .

Provavelmente, você vai ficar estupefato(a) com essa proposta ou simplesmente a descartará como absolutamente desprovida de sentido: “Mas uma ciência dos quadrados não pode se fundar na premissa de que é possível comparar dois quadrados em tamanho, sem saber seus tamanhos nem a escala de um para o outro… isso é logicamente impossível.”

Ou seja, você terá notado que o problema na proposta é lógico e não uma questão de controlar variáveis, de ter a tecnologia certa ou de admitir que os resultados serão “apenas probabilísticos”.  O que estão lhe pedindo é logicamente impossível, não empiricamente impossível. Seu estudo não será probabilístico nem preliminar e sim nonsense.

No entanto, quantas vezes não fazemos exatamente isso na Psicologia? Confundimos problemas de ordem lógica com problemas empíricos e metemos os pés pelas mãos.

Na página 4 do Verbal Behavior, segundo parágrafo, em que, como vimos na última postagem, Skinner cita algumas vertentes da linguística e da filosofia que abordaram a questão do significado, há a seguinte frase:

“[Alguns estudiosos da semântica] são essencialmente terapeutas que sustentam que muitos dos problemas do mundo são erros da linguagem.”

Trata-se de Wiitgenstein, nesta única e obscura alusão. Refere-se a uma comparação que Wittgenstein usou para explicar o papel elucidativo de sua filosofia. Ele disse que sua filosofia era muito mais um esforço para nos ajudar a ver o que já está ali, na frente de nossos olhos, mas não conseguimos enxergar, do que uma tentativa de construir algum sistema de pensamento novo. Grande parte dos problemas filosóficos (e que fundamentam a psicologia)  não se resolvem construindo mais e mais sistemas teóricos. Precisamos ver as coisas que já estão aí de uma outra maneira, assim como ocorre na terapia. Os insights, que às vezes ocorrem no curso da terapia e que podem mudar profundamente nossa vida, não consistem em novos dados sobre nossa biografia, e sim em mudanças naquilo que antecede qualquer dado:  nossos quadros de referência, nossa maneira de olhar para aquilo que já estava ali o tempo todo.

Mary Poppins

Wittgenstein chegando em Cambridge.

Slavoj Zizek** conta a história de um militar norte-americano que, num exercício de filosofia amadora, afirmou que há coisas que (1) sabemos que sabemos; (2) sabemos que não sabemos e (3) não sabemos que não sabemos. Argumentou com base nisso que poderia haver armas terríveis escondidas no Iraque, desconhecidas ou até nem imaginadas, e usou esse argumento para justificar o ataque miliar ao país.

Zizek aponta que ele esqueceu o quarto e mais importante componente dessa classificação: aquilo que não sabemos que sabemos. São nossos pressupostos, preconceitos e visões de mundo, que guiam nossa forma de pensar e limitam o tipo de perguntas que conseguimos formular.  São aquelas crenças, que, numa boa terapia, se revelam para nós, estranhas e ao mesmo tempo tão familiares. São os pressupostos que, na filosofia, Wittgenstein tentava cuidadosamente desenmaranhar e trazer à luz.

Se o militar não tivesse deixado de fora essa dimensão e se preocupado com ela, conclui Zizek, obviamente ele não teria conseguido justificar a guerra, pois os pilares implícitos de sua argumentação teriam se esfarelado. Mas é claro que, nesse caso, ele seria um filósofo, e não um senhor da guerra empenhado em persuadir.

Causa estranheza que Skinner tenha aludido a Wittgenstein de forma tão críptica e quase desdenhosa. Arrisco pensar que ele não queria se identificar com a filosofia e desejava deixar bem claro que o dele era um projeto de uma ciência natural. Mas o Verbal Behavior é muito mais sobre os pressupostos que carregamos acerca da mente, da linguagem e do comportamento do que sobre respostas empíricas a perguntas empíricas. É  muito mais sobre o aquilo que não sabemos que sabemos (que nos faz tantas vezes formular perguntas confusas) do que sobre o que sabemos que não sabemos . A proposta que ele faz ao longo do livro, incluindo a classificação funcional de nossas ações verbais, só é compreensível a partir dessa transformação em nossa perspectiva de base. O Professor Antonio Ribeiro, com quem aprendi a ler o Verbal Behavior, costumava dizer que era como ver o mundo através de  lentes diferentes. O Verbal Behavior não é um conjunto de respostas, e sim um convite a uma nova maneira de perguntar.

*Wittgenstein, L. Remarks on the Philosophy of Psychology (Vo. I). (Eds. G.E.M. Anscombe & G.G. Von Wright) (Trans. G.H. Von Wright). Chicago: The University of Chicago Press.

**Zizek, Slavoj(2017). Acontecimento: uma viagem filosófica através de um conceito (Trad.: Carlos Alberto Medeiros). Rio de Janeiro: Zahar.

Como referenciar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 17 de setembro). O contexto filosófico do Verbal Behavior – Parte 2 ou O que não sabemos que sabemos. [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog/2017/09/17/o-contexto-filosofico-do-verbal-behavior-parte-2-ou-o-que-nao-sabemos-que-sabemos/

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flore (2017) enfatiza….