O contexto filosófico do Verbal Behavior – Parte 1 (pp. 3-4)

  • 20170916_001958Ontem tentei, por meio de exemplos, adiantar um pouco da crítica que Skinner faz a algumas formulações “tradicionais”, como ele as chama, da linguagem. Busquei mostrar que a grande dificuldade que vê nelas é que se apoiam em uma concepção insustentável do pensamento/linguagem como algo que está em nossas mentes e é apenas “relatado” quando falamos ou escrevemos. Tentei explicar a concepção que ele defende:  que quando a gente está, por exemplo, elaborando um texto, a gente está fazendo uma coisa só, e não duas (uma num teatro fantasmagórico e a outra com o corpo). Sei que me adiantei e não segui o texto de forma linear, mas é que me parece funcionar melhor assim, em “espiral”, como sugeria Vygotsky: visitamos uma ideia muitas vezes, mas cada vez será diferente, porque nosso repertório verbal sobre o tema será outro.

Se essa noção de que não fazemos duas coisas ao mesmo tempo quando falamos ou escrevemos é nova para você, lhe parece difícil de acreditar ou de aceitar (para outros, com outras formações, pode parecer óbvia, mas a psicologia é muito influenciada por teorias dualistas, com exceção talvez,  das teorias de matriz fenomenológica). Se, para você, essa ideia é nova, não se preocupe, pois teremos muitas oportunidades de falar dela.

Se você já leu algo de análise do comportamento, talvez esteja se perguntando “Mas e o tal comportamento encoberto? Quando eu falo, não estou tornando pública uma fala que já ocorreu de forma encoberta?” ou  “Peraí, eu não penso antes de falar? Se não pensasse, diria qualquer coisa! E o que é pensar, se não me comportar verbalmente de forma encoberta?”

Não vou lhe entregar o gabarito  (que nem caberia em um texto curto) mas quero que você pondere se não haveria algo de estranho nas afirmações acima, que tantas vezes se repetem em aulas de análise do comportamento. Então a teoria skinneriana é igualzinha às teorias de matriz dualista, só que a gente troca os “processos mentai” por “comportamento encoberto”? Tudo então se dá duas vezes, uma vez “encoberto” e outra vez “público”? A única diferença com as teorias de inspiração cartesiana  é que esse “algo” que acontece antes seria “comportamento encoberto”? Você já deve ter se dado conta que essa seria uma contribuição bem fraca ao debate, não é? Além disso, essas afirmações não combinam com o que Skinner afirma o tempo todo neste Capítulo 1 (e em toda sua obra): que a maior parte das abordagens tradicionais do comportamento (verbal ou não), encontraram problemas, em grande parte, porque partiram do pressuposto de que se comportar é apenas a expressão externa de algo que já aconteceu internamente.

Hoje e em alguns dos próximos posts, vou tentar me ater um pouco mais ao texto e ser mais didática. Vamos nos debruçar sobre a parte que leva o título de “Formulações Tradicionais”. Aqui Skinner faz um rápido panorama de outras disciplinas que têm estudado a linguagem ( rápido mesmo, bem superficial) e analisa criticamente as formas como essas disciplinas vêm abordando o problema. Muitas vezes, em sala de aula, se passa d em brancas nuvens por este trecho, por ele ser pleno de referências desconhecidas para muitos. Mas é importante, justamente aqui, não ter pressa e procurar compreender.

Entre as disciplinas que abordam o objeto de estudo de Skinnr, ele cita a retórica, gramática, lógica, metodologia científica, linguísitica, cítica literária, fonoaudiologia, semântica, matemática e “muitas outras”. A presença da matemárica e da lógica nessa lista evidenciam que ele está dialogando com tendências na filosofia da linguagem que buscavam criar sistemas formais, que evitassem a ambiguidade tão presente na linguagem cotidiana. Assim também, o fato de ele ter incluído a metodologia científica nessa lista mostra que ele estava alinhado (e isso é explicitado mais para frente) com a concepção da ciência como linguagem e dos problemas que, no Século XX, ocuparam os filósofos da ciência. Esses problemas partiam do insight de que ciência é um falar sobre o mundo e que, portanto, sua fundamentação teria como pré-requisito o esclaecimento de como é possível a representação do mundo pela linguagem. Também estavam no centro das atenções os problemas de inconsistências ou contradições na linguagem matemática, buscando-se fundá-la em sistemas formais comprovadamente consistentes (o que mais tarde se revelou logicamente impossível, quando Gödel mostrou que não se pode provar a consistência ou não de um sistema formal usando esse mesmo sistema).

Skinner reconhece que essas disciplinas abordaram vários aspectos da linguagem, mas não aquele que ele queria investigar: as causas do comportamento verbal ou, em outras palavras, explicações de por que, e em que circunstâncias, alguém diz o que diz. A lnguística, por exemplo, em muitas de suas vertentes, aborda a linguagem de forma abstrata (como algo separado das pessoas concretas em situações concretas) e muitas vezes como prática de um grupo (por exemplo, quando estuda as mudanças numa palavra ao longo do tempo). A retórica traçou regularidades do comportamento verbal no que tange a seus efeitos sobre a audiência, se aproximando de uma análise das interações, porém não se desenvolveu consistentemente nessa direção. A crítica literária, ainda segundo Skinner, não problematiza a concepção dualista do significado e da mente. Ele conclui que nenhuma delas se aproximou do que ele propõe: uma análise propriamente psicológica da linguagem,   fundada, todavia, não em uma psicologia mente-corpo, mas em uma psicologia do organismo em interação com o mundo. Essa ciência do comportamento, aplicada ao comportamento verbal, permitiria traçar relações funcionais entre variáveis do ambiente e o comportamento verbal de indivíduos de carne e osso.

Skinner interpreta a virada linguística na filosofia, com sua busca pela compreensão da questão do significado, como ocasionada, pelo menos parcialmente, por essa lacuna ululante na compreensão psicológica da linguagem. Insatisfeitos com o psicologismo que contaminava o estudo da linguagem, os filósofos analíticos (como Russell e também Wittgenstein em sua primeira fase), seguindo Frege, tentaram expurgar o entendimento da linguagem de qualquer resquício psicologista. Tinham verdadeiro pavor à doutrina das ideias dos empiristas britânicos e acreditavam ser possível uma análise puramente lógica da linguagem (ou do pensamento, o que vinha a ser o mesmo, para eles, pois um pensamento não era um processo psicológico dentro de nossas cabeças e sim algo que pode ser dito sobre o mundo).

Esses sistemas artificiais  constituíam tentativas de descrever tudo que é possível dizer sobre o mundo usando notação lógica, escapando assim do “ruído” causado pela ambiguidade, os múltiplos sentidos da linguagem natural. No entanto, as tentativas de desenvolver uma ” conceitografia” não chegaram nem perto de uma análise funcional das causas do comportamento verbal. Ou seja, a linguagem ali era abordada sem contexto, em forma de “proposições”, fora de qualquer interação. Partia-se do pressuposto de que a proposição (ou o pensamento, no sentido de algo dito sobre o mundo) era aquilo que podia ser dito em várias línguas. Ou seja, a proposição seria o pensamento, aquilo que pode ser dito, independentemente da frase específica usada para expressá-lo. Esses pensamentos, enfatizo novamente, não eram, para esses filósofos, ideias na mente, e sim uma descrição possível de um estado de coisas. No entanto, Skinner repete uma crítica feita muitas vezes a essa concepção: o que seria uma proposição? Não faz sentido dizer que seria o conjunto de todas as frases que a expressariam, pois, para colocar uma determinada frase nesse conjunto, você já teria que saber qual é a proposição que ela expressa. O que é esse algo misterioso que pode ser expresso em várias línguas? Onde estaria? Seu caráter francamente platônico (reminiscente de um mundo das formas perfeitas) definitivamente não combinava com a repulsa desses filósofos a qualquer resquício de metafísica em seus sistemas.

Em suma, não é simplesmente expulsando a psicologia do entendimento da linguagem que a coisa se resolve, e sim adotando uma abordagem psicológica completamente nova, fundamentada, não na doutrina das ideias, mas numa ciência empírica que investiga relações funcionais entre o comportamento e variáveis do ambiente. Traçar um esboço dessa abordagem, mostrando seu potencial, é o objetivo de toda a obra Verbal Behavior.

Como referenciar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 16 de setembro). O contexto filosófico do Verbal Behavior: Parte 1 – pp. 3-4 [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog/2017/09/16/o-contexto-filosofico-do-verbal-behavior-parte-1-pp-3-4/

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flore (2017) enfatiza….