Escrever não é transcrever ideias.

Não sei usar este site direito ainda e acabei de perder o começo deste post que havia escrito ao pressionar a setinha de “voltar”. Bem que minha orientanda Anny me ensinou que “nunca se deve pressionar a setinha de voltar”. Infelizmente, o comportamento verbal dela não me afetou num sentido útil. Continuo fazendo a mesma besteira, embora tenha ficado a lembrança da situação em que ela me deu essa instrução tão valiosa (eu tentanto fazer check-in eletrônico em um fim de tarde lindíssimo, sentada num banquinho de praça numa linda cidade de Mèxico.

Meu outro começo, que eu perdi para sempre, citava um texto de Skinner sobre o processo de escrita. Eu começava me lamentando por não estar seguindo sua orientação sensata de não deixar a escrita para o final do dia, “depois de resolver todas as diligências” (aparenemente, o tema de minha relutância em seguir conselhos sábios está forte em meu comportamento verbal hoje).

O fato é que essa história de eu ter “perdido um parágrado” se encaixa perfeitamente num dos pontos enfatizados por Skinner neste primeiro capítulo: quando você fala, ou quando escreve, não é um “tradutor” que está transcrevendo ideias do mentalês para o português, nem um escriba que está apenas copiando para o papel ideias que estáo em sua mente. Quando você escreve, está se comportando verbalmente. Pensa no desespero quando perde o que escreveu: “E agora? Nunca vou conseguir colocar as coisas tão bem!” Ora, se você fosse apenas escriba das próprias ideias prontas na cabeça, primeiro, que enfadonho seria escrever, e segundo, perder seu texto significaria, apenas, copiar tudo de novo de seu hard disk (nossa, essa é antiga, heim?) para o papel. Mas não é nada disso que acontece, certo? Quando você perde seu texto e vai escrever “de novo”, nunca vai sair igual porque você não está copiando nada: está se comportando verbalmente ao vivo e em cores. E é claro que você já não é o mesmo que aquele que pensouescreveu* aquele outro texto. Neste novo momento, neste novo contexto, e inclusive com toda a experiência de ter escrito aquele outro texto, esse vocêagora, talvez desesperado com a perda do texto*, talvez mais desesperado ainda com um prazo que finda, vocêagora vai pensarescrever um novo texto.

É por isso que fazem sentido conjuntos de recomentações como este de Skinner ou este de  Sérgio Ricardo da Mata**sobre como escrever sua tese, dissertação ou artigo. Eles não dizem “Deite na cama e tenha ideias” (bem que a gente às vezes deseja que fosse assim, né?), nem dizem “Tenha certeza de ter ideias em sua mente bem organizadas e depois é só copiar para o papel”. Nada disso. As orientações são coisas como “Tome notas e mais notas” (ambos autores enfatizam muito isso). Ou coisas como “Se lhe ocorrer algo interessante, escreva (pensescreva!)  imediatamente”. Não anote apenas um “lembrete” Porque não existe nenhuma gavetinha em sua mente que você só vai precisar abrir depois! Portanto, seize the moment! Mais tarde, as condições poderão não mais evocar com tanta força aquele comportamento verbal. Skinner sugere ainda reler as próprias notas, organizá-las em diferentes sequências, tornando os produtos anteriores de seu próprio comportamento verbal parte do que vai influenciar seu comportamento agora. Ler muito, e se comportar verbalmente frente àquilo que lê: anotar nas margens, ter sempre em mãos um caderninho, ou um tablet, ou falar no gravador de seu celular (interessante você verificar que formas de pensarescrever ou pensarfalar funcionam para você e em que circunstâncias)  Mais do que tudo, ambos autores sublinham:  Para escrever melhor, escreva, escreva, escreva. Se você estivesse apenas transcrevendo ideias já prontas, esse conselho não faria sentido, não é verdade?

Nunca saberemos como teria ficado este texto se eu não tivesse perdido aquele outro parágrafo. Provavelmente, ele seria diferente em muitas coisas, e surpreendentemente parecido em outras.. Talvez eu não tivesse “tido” a expressão pensarescrever (Skinner fala em “ter um poema” (“to have a poem“) no sentido de gerar, parir – vale muito a pena conferir essa palestra). Provavelmente aquele primeiro parágrafo teria me levado por outros caminhos. O fato é que foi este texto aqui que eu pari hoje, sendo ou estando este corpo um pouco cansado,20170914_213439 (2) neste escritório um pouco quente demais, nesta hora um pouco inconveninete. Sei que minhas leituras de hoje aumentaram fortemente a probabilidade de eu usar a própria escrita como um exemplo do comportamento verbal vivo, em contraste com a concepção da escrita como cópia de ideias mofadas (me vem a palavra musty em inglês). Este texto, bom ou ruim, é único, e nasceu aqui, agora, enquanto pensoescrevo.

*A moça do caso recente do assalto, que arriscou a própria vida para recuperar a única cópia de sua tese, mostra bem que reescrever não é questão de recuperar informações em gavetinhas do cérebro. Você vai ter que ter condições (de tempo, emocionais, físicas, financeiras, sociais) de criar novas situações que tornem provável comportamento verbal acerca daquele tema.

**Recomendado hoje no facebook pelo professor de história da UnB Dr. Jaime de Almeida, justamente quando eu estava lendo o texto de Skinner sobre o mesmo assunto. Um caso interessante do que Jung denominou sincronicidade. Os dois textos são muito bons e dão dicas excelentes para quem está um pouco desesperado com seu processo de escrita ou simplesmente quer escrever mais e melhor.

Como referenciar este post (APA):

Flores, E.P. (2017, 14 de setembro). Escrever não é transcrever ideias [Publicação em Blog]. Recuperado de https://noblackscorpion.blog/2017/09/14/escrever-nao-e-transcrever-ideias/ 

Como citar dentro do texto (exemplos):

Flores (2017) afirma que…

Assim, o exemplo apresentado por Flore (2017) enfatiza….